SENHORA DA ASSUNÇÃO, PADROEIRA DA BENFEITA

Monte Frio, 29 Agosto 2014

Em memória das Assunções da minha terra

O dia 15 de Agosto é o dia da Nossa Senhora da Assunção, ancestral padroeira da freguesia de Benfeita. Todos os anos, nesta data, aqui se realiza a tradicional festa em sua honra. No tempo dos nossos avós, ranchos de montefrienses desciam a pé, serra abaixo, para uma presença numerosa num culto imprescindível à padroeira, cuja imagem veneravam na vetusta capela
situada no centro da aldeia. Naquele tempo, nos séculos dezanove e vinte, havia enorme afinidade entre as populações da Benfeita e do Monte Frio, havia grande amizade, muitos laços familiares, tantos casamentos, tantos primos e sobrinhos. E ir à Benfeita a pé, era uma prática quase diária, tudo era ali tratado, as compras, os arranjos, os registos… o culto religioso
na missa dominical. Jornadas feitas sem dificuldade, caminho abaixo, caminho acima, muitas vezes com carregos às costas. Isto é que eram caminhadas! Pelos caminhos de xisto… Que belos tempos.
A idolatria dos nossos antepassados pela padroeira da freguesia originava que um dos nomes preferidos para chamar às meninas recém-nascidas era o de ASSUNÇÃO. Noutros tempos, suponho, não havia casa do Monte Frio que não tivesse uma Assunção. Fazia parte da cultura do povo. Por isso, de certa forma, este texto pretende homenagear a minha querida mãe, Dona Assunção Martins, e todas as Assunções da minha terra, que foram tantas e hoje aqui evocamos. Das que me recordo, em meados do século passado: Assunção do Álvaro, Assunção Peres, Assunção da ti Rosalina, Assunção Rosa, Assunção do Carmo, Assunção do
Cimo, Assunção Pedra, Assunção (anã) da ti Nazaré, Assunção do Medronheiro, Assunção da ti Adelaide, Assunção do ti Manel Henriques (que teve doze filhos e faleceu nova), a sua filha Assunção Peiorra, Assunção do Carlos, Assunção do Mário, Assunção Andorinha, Assunção (surda-muda) da tia Maria do Sobral, Assunção Custódio, Assunção do Adriano, Assunção
do ti Dionísio, Assunção do Brotas, Assunção do ti Albino, Assunção do Costa, ti Maria da Assunção… e quantas mais?
‘Casa que não tenha uma Assunção…’
Por exemplo, o meu avô materno, José Martins Morgado, entre 1906 e 1919, teve cinco filhas (Dos Anjos, Gracinda, Assunção, Maria e Laurinda) e um filho (António, faleceu em 1940, com 21 anos). Entretanto, a menina Assunção viria a falecer (por doença) quando tinha uns quatro ou cinco anos. Acontece que a minha querida mãe viria a nascer mais tarde, em Julho de 1922.
E sabem qual foi o nome que lhe puseram? Exatamente: Assunção. O mesmo nome da irmã que havia falecido alguns anos antes. Como que a sustentar o dito: ‘casa que não tenha uma Assunção não é casa nem é nada!’ Esta história, bem curiosa, diz bem do que seria a veneração dos nossos antepassados à Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Benfeita.
A verdade é que esta vulgaridade do início do século vinte caiu em desuso e, seguramente, posso afirmar que, há mais de setenta anos, nenhuma menina do Monte Frio foi registada com o nome da padroeira. E é por isso que a minha querida mãe, com a bonita idade de 92 anos, é a única Assunção que ainda está entre nós. Graças a Deus!
Já agora, a revelação que os padrinhos da minha mãe foram a irmã Dos Anjos (já com 18 anos) e o tio Albino Henriques o famoso ‘Cavaquinho’ , figura incontornável do Monte Frio, de quem um dia aqui falaremos.
É curioso o facto de hoje em dia ninguém se lembrar de colocar o nome Assunção nas recém-nascidas. Apesar, da Presidente da Assembleia da República Portuguesa se chamar Assunção Esteves e da Ministra da Agricultura e do Mar, ser Assunção Cristas, duas altas figuras da hierarquia política nacional.
Já agora, como complemento, dizer que, para além de Assunção e de Maria, outro nome bastante comum, nos tempos idos da nossa terra, era Dos Anjos. Não havia família que não tivesse uma Dos Anjos. Um nome que também caiu em desuso. A minha querida avó paterna era Dos Anjos. E a minha querida avó materna era Jesus. Vejam bem: Jesus e Dos Anjos. Com estas avós que Deus tem eu tenho de andar sempre abençoado. Graças a Deus!
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